Pico de S. Tomé. O nosso corpo tem limites, todos já atingimos um ponto em que não aguentávamos mais. Num dia a fazer desporto, no trabalho ou até a estudar. A verdade é que às vezes temos que puxar por ele até pensarmos que “já não dá mais” e aí vemos do que somos capazes. A viagem ao Pico foi a nossa prova de sobrevivência. Depois de 2 horas de sono na noite anterior e um cansaço acumulado da semana de trabalho, lá fomos nós acordar às 4h da manhã para o nosso fim-de-semana de aventura. Começou com uma viagem louca de carrinha de caixa aberta com quase 40 pessoas em que não havia um espacinho a mais. Chegámos ao Parque Obô às 7h, visitámos o jardim botânico, conhecemo-nos uns aos outros e foi feita uma oração para que tudo corresse bem. Às 7h30 começou a aventura. As primeiras horas foram de uma grande subida e um ritmo muito elevado, já havia muitas dificuldades mas com a ajuda de todos foram sendo superadas. Por volta das 10h chegámos ao topo de uma das montanhas, donde se avistava a Lagoa Amélia. A Lagoa não tem água à superfície mas sim debaixo de um grande manto de terra. É como um pântano em que estamos a andar por cima de água. A lenda conta que a Amélia era uma senhora que foi “comida” pela água da lagoa, desde aí está por baixo da terra a atormentar os visitantes. Eu, o António, a Ânia, o Luís Quintaneiro e alguns santomenses descemos à lagoa para andar em cima da lagoa e, quem sabe, encontrar a famosa Amélia. As horas que se seguiram foram de uma enorme intensidade. Para vos descrever um pouco da viagem e com o que nos fomos deparando, tenho que vos falar primeiro da magnífica paisagem que nos ia acompanhando. Montes gigantes, um verde de 10 tons diferentes, árvores grandiosas que pareciam ter 100 metros de altura, plantas mágicas com diferentes cores e tamanhos e uma imensidão de nuvens debaixo dos nossos pés. O percurso foi duro e com alguns percalços. O corpo foi dando sinais de fraqueza para alguns, mas os santomenses que andam há mais tempo nestas andanças continuavam sempre rijos, quase sem suar, a cantar músicas locais e a contar piadas. O João, que esteve à minha frente na maioria do percurso, tinha duas frases que marcaram esta viagem: “já só faltam 2 curvas” e “faltam umas meias horas”. Durante a caminhada encontrámos um bocadinho de tudo. As famosas “lâminas” – percursos com uns 40cm de largura em que de um lado e de outro existe uma ravina em que não se vê o chão; As “escadas” – caminho em forma de escada com uma inclinação parecida a uma parede, em que os degraus são feitos de raízes; O “purgatório” – local já perto do destino final em que se passa por cima de uma ravina e temos que ir colados ao monte e a agarrados a ramos. As 18h30, depois de 11 horas, chegámos à “Mesa do Pico”, sítio onde iriamos ficar a dormir a apenas 30 minutos do Pico. Estávamos mortos, acabados, arrasados. Enquanto os que ainda tinham forças começavam a montar as tendas, nós deitados no meio do chão e sem forças que nos restassem, pensávamos “conseguimos!”. O jantar foi massa com peixe, junto ao calor de uma fogueira e a ouvir música tradicional santomense (até o hino ouvimos, apesar de nem todos saberem exactamente a letra). A noite foi passada numa tenda com 7 pessoas, com um frio que gelava os ossos e com pedras e buracos entre nós. A alvorada foi às 6h, mais tarde do que era esperado, e ainda antes do “mata-bicho” (pequeno-almoço) subimos até ao Pico. Finalmente estávamos no Pico, apelidado “Pico Gago Coutinho” por ter sido este, o primeiro a subir até ao topo. Existia uma placa referente a pessoas que fizeram todo este caminho e “juraram nunca mais cá voltar”, ideia que nós percebemos inteiramente e juntamo-nos a este grupo. Ainda houve tempo para uma chamada para a Rádio Nacional no sentido de ficar registado que mais um grupo conseguiu a proeza. O dia seguinte foi feito a descer constantemente. Inclinações vertiginosas, montes que se faziam a correr e até caminhos em que ir de rabo ao chão era a melhor solução. Faltava só mais um obstáculo, os túneis do rio Contador. Estes túneis serviam para fazer a distribuição da água e tinham o caminho lado a lado com a pequena corrente de água. Havia lama e muitos morcegos. Entre os túneis pudemos encontrar a maior cascata da ilha, era gigantesca e muito majestosa. Passando o último túnel, fomos começando a ver pessoas e uma estrada de alcatrão, até que chegámos à carrinha que nos ia levar de volta. Tinha acabado a caminhada. Um dos guias dizia que andámos cerca de 50 km, o problema é que com as subidas e descidas pareceram uns 100! Cansados mas alegres, íamos nós nesta caminhada rumo a casa depois de cumprido o objectivo. A viagem foi feita a apreciar o pôr-do-sol, pensando “foi óptimo mas nunca mais hei-de voltar!” e a cantarolar músicas como:
“Ohh Joãaao,
Wôoo
Wôoo
Qui bom qui você veio,
Wôoo
Wôoo
Foi Jesus qui ti chamou,
Wôoo
Wôoo
E você aceitou,
Wôoô
Wôoô
Qui bom, qui bom
Qui bom qui você veio;
Qui bom, qui bom
Qui bom qui você veio”
Qui bom qui você veio;
Qui bom, qui bom
Qui bom qui você veio”
13 de 14 de Agosto de 2011