terça-feira, 23 de agosto de 2011

Pico de S. Tomé


Pico de S. Tomé. O nosso corpo tem limites, todos já atingimos um ponto em que não aguentávamos mais. Num dia a fazer desporto, no trabalho ou até a estudar. A verdade é que às vezes temos que puxar por ele até pensarmos que “já não dá mais” e aí vemos do que somos capazes. A viagem ao Pico foi a nossa prova de sobrevivência. Depois de 2 horas de sono na noite anterior e um cansaço acumulado da semana de trabalho, lá fomos nós acordar às 4h da manhã para o nosso fim-de-semana de aventura. Começou com uma viagem louca de carrinha de caixa aberta com quase 40 pessoas em que não havia um espacinho a mais. Chegámos ao Parque Obô às 7h, visitámos o jardim botânico, conhecemo-nos uns aos outros e foi feita uma oração para que tudo corresse bem. Às 7h30 começou a aventura. As primeiras horas foram de uma grande subida e um ritmo muito elevado, já havia muitas dificuldades mas com a ajuda de todos foram sendo superadas. Por volta das 10h chegámos ao topo de uma das montanhas, donde se avistava a Lagoa Amélia. A Lagoa não tem água à superfície mas sim debaixo de um grande manto de terra. É como um pântano em que estamos a andar por cima de água. A lenda conta que a Amélia era uma senhora que foi “comida” pela água da lagoa, desde aí está por baixo da terra a atormentar os visitantes. Eu, o António, a Ânia, o Luís Quintaneiro e alguns santomenses descemos à lagoa para andar em cima da lagoa e, quem sabe, encontrar a famosa Amélia. As horas que se seguiram foram de uma enorme intensidade. Para vos descrever um pouco da viagem e com o que nos fomos deparando, tenho que vos falar primeiro da magnífica paisagem que nos ia acompanhando. Montes gigantes, um verde de 10 tons diferentes, árvores grandiosas que pareciam ter 100 metros de altura, plantas mágicas com diferentes cores e tamanhos e uma imensidão de nuvens debaixo dos nossos pés. O percurso foi duro e com alguns percalços. O corpo foi dando sinais de fraqueza para alguns, mas os santomenses que andam há mais tempo nestas andanças continuavam sempre rijos, quase sem suar, a cantar músicas locais e a contar piadas. O João, que esteve à minha frente na maioria do percurso, tinha duas frases que marcaram esta viagem: “já só faltam 2 curvas” e “faltam umas meias horas”. Durante a caminhada encontrámos um bocadinho de tudo. As famosas “lâminas” – percursos com uns 40cm de largura em que de um lado e de outro existe uma ravina em que não se vê o chão; As “escadas” – caminho em forma de escada com uma inclinação parecida a uma parede, em que os degraus são feitos de raízes; O “purgatório” – local já perto do destino final em que se passa por cima de uma ravina e temos que ir colados ao monte e a agarrados a ramos. As 18h30, depois de 11 horas, chegámos à “Mesa do Pico”, sítio onde iriamos ficar a dormir a apenas 30 minutos do Pico. Estávamos mortos, acabados, arrasados. Enquanto os que ainda tinham forças começavam a montar as tendas, nós deitados no meio do chão e sem forças que nos restassem, pensávamos “conseguimos!”. O jantar foi massa com peixe, junto ao calor de uma fogueira e a ouvir música tradicional santomense (até o hino ouvimos, apesar de nem todos saberem exactamente a letra). A noite foi passada numa tenda com 7 pessoas, com um frio que gelava os ossos e com pedras e buracos entre nós. A alvorada foi às 6h, mais tarde do que era esperado, e ainda antes do “mata-bicho” (pequeno-almoço) subimos até ao Pico. Finalmente estávamos no Pico, apelidado “Pico Gago Coutinho” por ter sido este, o primeiro a subir até ao topo. Existia uma placa referente a pessoas que fizeram todo este caminho e “juraram nunca mais cá voltar”, ideia que nós percebemos inteiramente e juntamo-nos a este grupo. Ainda houve tempo para uma chamada para a Rádio Nacional no sentido de ficar registado que mais um grupo conseguiu a proeza. O dia seguinte foi feito a descer constantemente. Inclinações vertiginosas, montes que se faziam a correr e até caminhos em que ir de rabo ao chão era a melhor solução. Faltava só mais um obstáculo, os túneis do rio Contador. Estes túneis serviam para fazer a distribuição da água e tinham o caminho lado a lado com a pequena corrente de água. Havia lama e muitos morcegos. Entre os túneis pudemos encontrar a maior cascata da ilha, era gigantesca e muito majestosa. Passando o último túnel, fomos começando a ver pessoas e uma estrada de alcatrão, até que chegámos à carrinha que nos ia levar de volta. Tinha acabado a caminhada. Um dos guias dizia que andámos cerca de 50 km, o problema é que com as subidas e descidas pareceram uns 100! Cansados mas alegres, íamos nós nesta caminhada rumo a casa depois de cumprido o objectivo. A viagem foi feita a apreciar o pôr-do-sol, pensando “foi óptimo mas nunca mais hei-de voltar!” e a cantarolar músicas como:

“Ohh Joãaao,
Wôoo
Qui bom qui você veio,
Wôoo
Foi Jesus qui ti chamou,
Wôoo
E você aceitou,
Wôoô
Qui bom, qui bom
Qui bom qui você veio;
Qui bom, qui bom
Qui bom qui você veio”

13 de 14 de Agosto de 2011

Boca do Inferno


Boca do Inferno. Fim-de-semana é dia de passeio e este sábado não podia ficar atrás. Lá começamos a nossa viagem com o famoso senhor Amilton, que já nos tinha levado à Lagoa Azul. Este senhor tem duas particularidades e dois percalços a apontar nesta viagem. A repetição das mesmas músicas durante toda a viagem e ainda o medo que tinha de ir para qualquer sítio que lhe parecesse mais “perigoso” para o carro foram dois pormenores que marcaram o dia. Quanto aos dois percalços, o senhor Amilton não teve muita sorte, pois logo no início do passeio vieram ter connosco porque achavam que tinha roubado peças de um carro igual ao dele e logo de seguida percebeu que perdeu o telemóvel. Esquecendo o senhor Amilton vou vos contar um pouco da nossa viagem. Começou na Boca do Inferno, uma zona com a rebentação muito forte das ondas nas rochas. A lenda conta que havia um Português que ia de cavalo branco pelo monte e passava por baixo da Boca do Inferno de São Tomé para ir dar à Boca do Inferno de Portugal (nós decidimos não tentar o mesmo). Este foi o sítio mais bonito que vi na ilha, em que a paisagem era digna de um postal. O sítio seguinte foi a praia de sete ondas onde demos mergulhos, bebemos água de coco e jogámos futebol com os miúdos. Na praia existe uns ouriços únicos no Mundo, que são espalmados e parecem conhas. A sua forma é sempre igual, parecendo um desenho feito a computador. Paragem seguinte, Ribeira Afonso. Esta localidade não tem muito para visitar mas não deixa de ser um sítio bonito de conhecer. Almoçámos peixe grelhado com arroz, comemos Iza-quenta e até tivemos a brincar com uns “mini explosivos” que os miúdos tinham fabricado. Por último fomos a Água-Izé, uma roça muito grande que ainda tem vestígios da linha de comboio, do hospital central e de algumas casas da época colonial. No geral está muito degradada, com muitas barracas e muita pobreza no meio das ruas. Tal como em qualquer roça por onde passámos, a visita foi feita com um acompanhamento dos meninos. No final do dia ainda deu tempo para darmos uma volta por Pantufo, sitio que a única coisa que tem para ver é uma rotunda, mas que o senhor Amilton fez questão de nos mostrar para provar que não se recusava a ir a todo o lado.

6 de Agosto de 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Centro do Mundo


Centro do Mundo. São Tomé e Príncipe é um país sem uma identidade definida. É um misto de várias culturas e formas diferentes de viver. Dizem por aqui que São Tomé e Príncipe não é África. Pode ser que seja uma África diferente. De uma coisa estou certo, é uma ilha em tudo especial. Geograficamente está no centro do Mundo. Por aqui passa o Equador e por aqui bem perto passa a linha de Greenwich. Linhas imaginárias que subdividem o Mundo em quatro partes. Uma ilha que se desconhece civilização antes da chegada dos Portugueses no ano de 1470. Um povo que muitas vezes dá a impressão de não se esforçar por ter uma vida melhor. Que não trabalha para ter mais mas para ir vivendo. Uma mentalidade “leve-leve”, como eles próprios dizem constantemente na rua, que os deixa ir levando a vida a pouco e pouco sem muitas preocupações. Uma população que vive do apoio de terceiros, existindo no país mais de 120 ONGs e representando a ajuda externa a maior fatia do bolo que permite a São Tomé ir aguentando-se. O problema está na acomodação do governo e do povo, na habituação de ter ajuda e não de construir um futuro sustentável com os seus próprios meios. Posso dizer que São Tomé é dos países mais ricos do Mundo, considerando a sua riqueza por km2. Existe fruta diversificada, uma vegetação admirável, peixes diferentes e de boa qualidade e uma beleza natural estonteante. Os recursos existem e não são aproveitados devidamente. As pessoas têm capacidades e têm uma aprendizagem rápida. Mentalidades têm de ser mudadas. A corrupção tem de ser evitada. Líderes e empreendedores são precisos neste país para que S. Tomé e Príncipe consiga subsistir sozinho. Espero que o MOVE ajude o País nesta luta, pois não é dinheiro que nós oferecemos, mas sim, a possibilidade de qualquer pessoa que queira, que se esforce e que acredite num futuro melhor e mais risonho, consiga ser aquilo o que o País precisa. 

3 de Agosto de 2011

Nojo

Nojo. Uma segunda-feira comum a todas as outras. Trabalho desde cedinho até escurecer. Tivemos a Ania como convidada para jantar e passar o serão. Depois de comermos uma bela Andala (peixe típico de São Tomé) cozinhada pelo chefe Pedro, estivemos a jogar ao “Juan” (que há quem chame de “Times Up”). Só para conhecerem minimamente o “Juan” vai aqui uma pequena explicação. Cada pessoa que estiver a jogar tem que escrever 5 papéis com uma palavra, nome ou frase que lhe apetecer. O que se escreve pode ir desde objectos, a verbos, a nomes de livros e filmes, expressões e provérbios. Depois mistura-se tudo numa taça e dividimo-nos por pares. Numa primeira fase, os pares têm 1 minuto de cada vez para acertarem no maior número de papéis. A pessoa que está a explicar o que está no papel pode dizer tudo menos o que está escrito, diminutivos ou transformações da palavra. Numa segunda fase, só se pode dizer 3 palavras para descrever o papel. Numa última será através da mimica. Quem tiver mais papéis ganha! Bom, mas o insólito da noite foi quando eu, o António e o Mário fomos levar a Ania a casa. Ao passarmos no centro da cidade, começámos a ouvir música e muito barulho. Fomos perguntando onde era a festa até chegarmos ao derradeiro local. Ofereceram-nos logo cervejas (o que é raro pois eles estão sempre à espera de uma contrapartida). Enquanto dançava com um dos convidados, a Ania disse-me ao ouvido: “Isto é um funeral”. Fiquei em choque. Não sabia onde me havia de meter. Fui com ela mais à frente e, no meio das colunas e do álcool, lá vimos os cartazes que diziam “Morreu Allê”. Era um senhor novo que teve um ataque cardíaco. Os amigos estavam a festejar a vida e a homenageá-lo. Por aqui é costume este tipo de celebração e costuma demorar 5 dias. Nestes dias ninguém dorme na casa do falecido. Os santomenses queriam-nos ali, a celebrar junto deles, apesar de não conhecermos o senhor nem mesmo nenhum dos presentes. Uns só queriam dançar connosco, outros não queriam que ninguém nos incomodasse para podermos estar à vontade. Achámos que fazia sentido celebrar com eles, pois se fossem eles a encontrar um funeral em Portugal não seria lógico estarem a cantar e a dançar, tal como não faria sentido estarmos ali de preto e sem participar. O nojo, como é chamado por aqui, é de grande importância para um santomense. Foi difícil de digerir numa primeira instância como devíamos reagir, mas penso que é uma festa bonita de se fazer para aqueles que amamos e respeitamos.

1 de Agosto de 2011 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Santana Grande

Santana Grande. De chapéu na cabeça e com uma recepção digna de uma estrela, foi assim que a Helena, novo elemento MOVE, chegou a São Tomé. No dia anterior foi a vez do Mário, voluntário durante 2 semanas na Fundação da Criança, aterrar na ilha. O Mário está aqui para colaborar nas actividades do curso de férias e vai ficar na nossa casa até voltar para Lisboa. Para a Helena ter uma primeira noite em grande decidimos ir a Santana. Tinha ouvido na rádio que nestes dias iria haver uma festa da cidade, “Santana Grande”. Os 5 cá de casa mais a Ania e o senhor Adilson (condutor do táxi) seguimos para Santana. O jantar foi num “restaurante” muito local, sem tecto e com umas senhoras muito simpáticas a servir. Cada um comeu um prato a 20 STD (0,80€) com uma asa de frango, banana-pão e fruta-pão e umas quantas cervejas Nacional a acompanhar. Em Santana estava um grande movimento, muitas barraquinhas de comida e bebida e muita animação a acompanhar. Existiam dois espaços de dança e nós ficámo-nos pela “Discoteca Móvel” com o DJ Cabelo. Muita dança santomense, pessoas novas que conhecemos, novos passos de dança e muita risada. Grande primeiro dia da Helena e uma festa a repetir.

30 de Julho de 2011

Lay’s days

Lay’s days. Dia 28 “saíram” os microcréditos! No caso do Abocholai, o valor foi de 12 000 000 STD (cerca de 480€). Este primeiro dia foi uma correria para mim e para o Lay. Primeiro fomos ao banco para levantar o dinheiro. Fomos de loja em loja na cidade para comprar os primeiros materiais. Comprámos pregos, chapas de zinco, rede e cimento. Tivemos que ir longe da cidade para comprar barrotes, tábuas e ripas. O senhor que nos vendeu estes materiais de madeira era um verdadeiro empreendedor e um exemplo para o Abocholai, pois, começando do zero, tem agora cerca de 1000 galinhas. Já tinha sido um dos comtemplados de um programa de microcrédito que houve há muitos anos, mas disse que foi o único que aproveitou tal oportunidade. Depois dos primeiros materiais comprados foram precisas 2 viagens de táxi e carrinha para levar as encomendas. A casa do Lay fica num zona com casas isoladas e com acessos difíceis, pelo que a viagem de carrinha foi caricata, principalmente quando tivemos com uma inclinação de quase 45 graus (Até filmei!) Mãos à obra. Com a ajuda de um carpinteiro (amigo do Abocholai) e o seu assistente começámos a fazer a capoeira. Primeiro com as medições, depois com os barrotes para ganhar as estruturas. Fomos juntando as ripas e tábuas e pelo meio mais barrotes. No dia seguinte foi a vez de retomar o trabalho e fazer mais compras. Faltava uma fechadura, umas dobradiças e a areia. A areia teve que ser comprada longe da cidade e para isso foi preciso transporte. Depois de muita discussão de preços e condições de negócios lá fomos nós comprar a areia. No caminho para casa tive o meu primeiro furo num pneu em terras santomenses (nada surpreendente dada a óbvia má condição em que a carrinha se apresentava). No final do dia, o chão já estava a ser preparado com pedras, o tecto já estava posto, a rede estava a ser pregada. A capoeira estava a ganhar forma de uma maneira muito rápida. Ficou combinado que segunda-feira as galinhas seriam entregues, mas como combinar e realizar são palavras tão distintas para estes lados, a entrega ficou para o dia seguinte. Neste mesmo dia, fomos comprar ração para as galinhas. Logo após pagarmos, o saco da ração rompeu, pelo que tivemos de colocar tudo noutro saco e tentar que não se desperdiçasse muita comida. As galinhas, apesar de ainda não serem todas, chegaram finalmente ao seu novo lar na terça-feira. Começou aqui um sonho, um projecto, um risco e uma oportunidade. Todos sabemos como é mau nos endividarmos e dependermos de outros para as coisas que acabamos por chamar de nossas, enquanto que na prática são propriedade dos bancos. Este é o início de um projecto empreendedor, de um sonho que faltava realizar, de uma oportunidade de vida que vai servir para ver atingido o objectivo traçado. Agora é só acreditar e trabalhar para que o futuro seja mais risonho do que foi o passado.

28 de Julho a 2 de Agosto de 2011 

Lay

Lay. Abocholai Quaresma, conhecido carinhosamente por Lay, é um dos empreendedores a quem foi atribuído microcrédito. Tem 27 anos e cara de menino. Não é casado, não tem namorada e não tem filhos, coisa rara num santomense com cerca de 15 irmãos. Vive com os pais, irmã e sobrinhos e ajuda a pagar as contas da casa. Lay completou o 11º ano do liceu e frequentou a universidade, tendo sido obrigado a abandonar o ensino superior para ajudar a família com as despesas. Participou em duas formações, uma como técnico de frio e electricista e outra de contabilidade geral e informática. Sempre com uma atitude positiva perante a vida e uma excelente capacidade de raciocínio, o Lay é uma pessoa impossível de não se gostar. O Abocholai foi um dos 6 contemplados que surgiram de um grupo inicial de 450 candidatos. O microcrédito será para a compra de galinhas e para a construção de uma capoeira. O objectivo é que os ovos dêem um retorno tanto para pagar os custos com as galinhas e prestações, como para conseguir ter um acréscimo no rendimento semanal e mais tarde conseguir continuar com o mini aviário com os seus próprios recursos.

28 de Julho de 2011 

Cascata de S.Nicolau

Cascata de S. Nicolau. O dia começou antes das 7h para podermos aproveitar bem o passeio. Combinámos com o Milton uma caminhada fora da cidade em que ele é que escolhia o roteiro. O Milton é um santomense que participou nas formações MOVE e constrói candeeiros de bambu. O Milton tem 27 anos e é super inteligente e conversador. O roteiro começou com uma ida à roça de Monte Café. Apanhámos um táxi que nos levou até “Bate Pá”, para poupar uns trocos, pois o taxista pedia demasiado até à roça. O problema é que o caminho era sempre a subir! Numa roça há de tudo. Escola, hospital, campo de futebol, etc.. Os mais pequenos iam cantando connosco algumas canções e até aprenderam a música do abecedário que era cantada pela Ana Malhoa (“tudo começou no A..”). Fomos muito bem recebidos e acarinhados. A paragem seguinte foi o jardim botânico do parque natural Obô. O jardim foi construído com apoios europeus mas depois foi deixado de lado, de maneira que o jardim só se mantém devido às doações dos visitantes. No jardim existem muitas árvores e plantas que caracterizam a vegetação de S. Tomé, como cajamangueiras, orquídeas, palmeiras, bananeiras e muitas mais. Depois do jardim andámos até à cascata de S. Nicolau. Esta cascata era linda e totalmente natural. Tem uns 40 metros de altura e a água fresquinha, coisa que aqui já não estamos habituados. Fomos para a cascata tomar um banho, tirar umas fotografias e aproveitar um tempinho de descanso, porque até aí já muitos quilómetros tínhamos andado. Para voltar à cidade conseguimos boleia de uns Espanhóis que nos levaram até à Trindade. Estes Espanhóis foram muito simpáticos e mostraram-se muito interessados no nosso projecto e com vontade de participar de alguma maneira, pois também eles estão em S. Tomé para promover o desenvolvimento da ilha. Ao chegar à Trindade, havia um campo de futebol 5 cheio de “jogadores da bola”. Nós éramos 6 mas como o Zé não podia jogar fizemos uma equipa de 5 (Eu, o Nuno, o António, o Pedro e o Milton). Era “roda bota fora”, ou seja, quem sofresse um golo saía. O primeiro jogo correu muito bem mas o segundo já não teve o mesmo destino. Começaram a entrar mais equipas e uma delas era mesmo muito boa. O jogo deles era coeso, trocavam muito bem a bola, não eram individualistas e faziam sempre uma boa jogada antes de marcarem um golo, foi uma surpresa para mim. A nossa equipa não era organizada e ficava sempre um “buraco” na defesa. Perdemos uns 4 ou 5 jogos e um deles acho que deve ter demorado uns 15 segundos (que vergonha…). Num dos intervalos conheci uma menina que me dizia que não gostava muito da escola porque os meninos gozavam com ela, mas a menina era muito esperta e até os números em francês sabia contar (até 1000 dizia ela), coisa que para mim já está um bocado esquecida (desculpa mãe, eu prometo melhorar o meu francês). Num dos jogos a menina trouxe-me um sumol de laranja, porque o pai dela era dono de um café. Gostei muito do gesto. Voltando ao jogo, finalmente conseguimos ganhar aos “campeões da trindade” com um golo magnífico do António. Os festejos que nós fizemos, em conjunto com os inúmeros adeptos da trindade, foram dignos de um golo da liga dos campeões! Depois desse jogo a confiança voltou e fomos ganhando jogo após jogo. Foram umas belas duas horas que ali passámos e que prometo regressar para uma bela jogatana. Claro que este maravilhoso dia só podia acabar com o maravilhoso bitoque a 3€ da cooperação. Que mais passeios como este acontecem nas próximas semanas.

24 de Julho de 2011