quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Nojo

Nojo. Uma segunda-feira comum a todas as outras. Trabalho desde cedinho até escurecer. Tivemos a Ania como convidada para jantar e passar o serão. Depois de comermos uma bela Andala (peixe típico de São Tomé) cozinhada pelo chefe Pedro, estivemos a jogar ao “Juan” (que há quem chame de “Times Up”). Só para conhecerem minimamente o “Juan” vai aqui uma pequena explicação. Cada pessoa que estiver a jogar tem que escrever 5 papéis com uma palavra, nome ou frase que lhe apetecer. O que se escreve pode ir desde objectos, a verbos, a nomes de livros e filmes, expressões e provérbios. Depois mistura-se tudo numa taça e dividimo-nos por pares. Numa primeira fase, os pares têm 1 minuto de cada vez para acertarem no maior número de papéis. A pessoa que está a explicar o que está no papel pode dizer tudo menos o que está escrito, diminutivos ou transformações da palavra. Numa segunda fase, só se pode dizer 3 palavras para descrever o papel. Numa última será através da mimica. Quem tiver mais papéis ganha! Bom, mas o insólito da noite foi quando eu, o António e o Mário fomos levar a Ania a casa. Ao passarmos no centro da cidade, começámos a ouvir música e muito barulho. Fomos perguntando onde era a festa até chegarmos ao derradeiro local. Ofereceram-nos logo cervejas (o que é raro pois eles estão sempre à espera de uma contrapartida). Enquanto dançava com um dos convidados, a Ania disse-me ao ouvido: “Isto é um funeral”. Fiquei em choque. Não sabia onde me havia de meter. Fui com ela mais à frente e, no meio das colunas e do álcool, lá vimos os cartazes que diziam “Morreu Allê”. Era um senhor novo que teve um ataque cardíaco. Os amigos estavam a festejar a vida e a homenageá-lo. Por aqui é costume este tipo de celebração e costuma demorar 5 dias. Nestes dias ninguém dorme na casa do falecido. Os santomenses queriam-nos ali, a celebrar junto deles, apesar de não conhecermos o senhor nem mesmo nenhum dos presentes. Uns só queriam dançar connosco, outros não queriam que ninguém nos incomodasse para podermos estar à vontade. Achámos que fazia sentido celebrar com eles, pois se fossem eles a encontrar um funeral em Portugal não seria lógico estarem a cantar e a dançar, tal como não faria sentido estarmos ali de preto e sem participar. O nojo, como é chamado por aqui, é de grande importância para um santomense. Foi difícil de digerir numa primeira instância como devíamos reagir, mas penso que é uma festa bonita de se fazer para aqueles que amamos e respeitamos.

1 de Agosto de 2011 

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