“Banhos”. Há uma prática comum entre países subdesenvolvidos, com uma democracia jovem e instável, são os chamados subornos para comprar votos. Até nos países mais ricos e estáveis ouvimos histórias de pagamentos por votos, mas em países Africanos este conceito é comum. Os meios de comunicação costumam publicar este fenómeno mas só aqui apercebi-me a naturalidade com que acontece. O actual presidente da república, Fradique, foi eleito em 2001 e cumpre agora o segundo mandato. Com as eleições marcadas para o dia 17 deste mês, existem 9 ou 10 candidatos à presidência. Com tanta variedade podemos pôr uma pergunta óbvia, o que os distingue? As campanhas são iguais, pautadas por uma enorme falta de escrúpulos e de uma noção errada de democracia e verdade. Os cartazes dizem “Estabilidade”, “S. Tomé melhor”, “S. Tomé mais forte”. Ganha quem grita mais, quem faz mais festa, quem dá mais t-shirts, porta-chaves, bonés. Ganha quem dá mais dinheiro. Angola está por trás de muitos dos candidatos, com dinheiro e muita influência. Todos querem ser os novos “donos” de S. Tomé, ter o controlo da ilha, transformar o paraíso numa máquina de fazer dinheiro.
Num concerto de campanha para um dos candidatos, enquanto o animador da campanha faz propaganda para o candidato em questão, grita um espectador: “Dá-me 50 conto”. Ouvindo, o animador pergunta “Qual é a moeda de S. Tomé?”, ao que todos dizem “Dobra”, o animador responde “Quanto são 50.000 Dobras em Dólar?”, “3” gritam todos pondo 3 dedos no ar. O animador diz que não tem 3 dólares com ele, só tem uma nota de 100 e oferece ao espectador. Este espectador se, com sorte, ganhar o ordenado mínimo, acabou de receber num minuto mais do que em 2 meses de trabalho árduo.
Dia seguinte, um comício decorre com centenas de santomenses na rua, é oferecido dinheiro sem critério de escolha. Quem agarrar primeiro fica com ele. Há alguém que tira mais do que devia, há confusão, há pedras e troncos na mão. Estão prontos a fazer “justiça social”.
Nessa mesma noite, depois de um jogo de futebol com pessoal “tuga” e um santomense, surge a inevitável pergunta ao local “em quem é que vais votar?” a resposta é um simples “não tenho escolha”, ao que um dos portugueses interroga se ele vai votar no que pagar mais. Um sim surge da boca dele. Não foi surpreendente, não foi estranho, foi simplesmente natural e evidente.
“Banho” é o nome dado a esta compra de votos, a este processo sem escrúpulos e rodeado de falsidade. É pena que o slogan é “tempo de mudança” não aconteça e a tendência seja para destruir e corromper ainda mais a sociedade e a ilha.
10 e 11 de Julho de 2011
Não há liberdade com fome.
ResponderExcluirÉ triste mas é essa a realidade...
ResponderExcluir