quarta-feira, 27 de julho de 2011

Origens

Origens. O MOVE é uma ONGD que acredita no empreendedorismo como forma de combater a pobreza. O objectivo é promover o desenvolvimento económico em países subdesenvolvidos. O empreendedorismo é apoiado através de formações em criatividade e gestão de pequenos negócios, outras formações em gestão e através de um programa de microcrédito que garante o financiamento e acompanhamento dos empreendedores escolhidos. O MOVE foi criado no Verão de 2009 por recém-formados em Economia e Gestão e o primeiro local escolhido foi a ilha de Moçambique, a que se seguiu a ilha de São Tomé. Timor será o próximo destino MOVE. Agora que já falei do MOVE no seu todo, queria focar-me em São Tomé. A primeira equipa chegou à cidade sem nada e teve que implementar o MOVE sem conhecimento do que iria encontrar. Muita coisa foi feita e ainda muito está à espera de uma continuação da 2º edição. Foram criadas parcerias e começados projectos, como é o caso da incubadora de empesas, da qual já falei anteriormente. O nosso objectivo número 1 são os microcréditos. Existe muita desconfiança em relação ao microcrédito, pois muitos projectos que foram tentados implementar na ilha não foram bem-sucedidos. O MOVE está na ilha para provar que o microcrédito pode ser bem sucedido, pois pensamos e funcionamos de uma forma diferente e é nisso que nos baseamos para ter sucesso. A diferenciação é feita em vários aspectos. Primeiro, o processo de selecção é muito exaustivo e feito de maneira a que sejam aceites só os melhores projectos, os que serão mais rentáveis e os que terão um maior impacto para a família e a comunidade (de 450 candidaturas, foram 5 os “sortudos”). Segundo, é feito um grande acompanhamento aos negócios dos empreendedores, dando auxilio em todas as áreas.
Este foi o dia do adeus a 3 elementos MOVE – A Marta, o Manel e a Margarida – e dois se irão seguir na próxima semana – O Zé e o Neto. Foi a hora do adeus a São Tomé e a todos os que os acompanharam nesta jornada. Fizemos uma festa no quintal de casa, com uma boa massinha, arroz com atum e outras comidas trazidas pelos convidados. Não faltou a sangria, a cerveja, o vinho palma e a lágrima de Deus (bebidas típicas). Na grande maioria, os convidados eram santomenses e por isso dança e música alta não faltaram. Foi uma festa em grande e sem dúvida a repetir. A noite só acabou no “DJ Cabelo”, uma discoteca ao ar livre que é muito popular na cidade. O voo era por volta das 7h da manhã, por isso fomos só a casa buscar as malas e levá-los ao aeroporto. Estavam presentes empreendedores para se despedirem, amigos dos três e os elementos da nova edição. Foi estranho vê-los a ir embora e saber que nós também vamos passar pelo mesmo. Obrigado à 1º edição pelo seu trabalho, São Tomé agradece.
Faltou referir que no meio da festa houve um banho de champanhe porque o Pedro fazia anos. Muitos parabéns ao menino, que estes meses sejam o teu maior presente.

21 de Julho de 2011

Bairro da Cooperação Portuguesa

BCP. Existe um espaço em São Tomé que todos os portugueses conhecem. Este espaço é do IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento – e é um bairro onde professores, médicos, militares e outros portugueses têm habitação enquanto estão em trabalhos/missões para o desenvolvimento de São Tomé e Príncipe. Para os Movers este é um sitio onde temos snooker, televisão para ver o clube do coração, um grande e barato bitoque e ainda um dos três sítios onde temos acesso à internet. Ontem foi dia de ir ao BCP, logo após a apresentação do concurso de ideias. Esta apresentação surgiu no âmbito de um projecto realizado pelo MOVE em que foi feito um processo de pré-incubação de empresas. Passo a explicar sucintamente. O que se pretendeu foi que grupos de pessoas empreendedoras conseguissem formar um negócio a partir de uma ideia. Foram desenvolvidos planos de negócio com os grupos e o objectivo seria apresentar a um júri e entregar um prémio para o grupo vencedor. O que gostaríamos de obter era um financiamento da parte de alguma empresa ou pessoa individual para o grupo com mais potencialidades, no sentido de ver o negócio implementado. Os grupos estavam bastante nervosos e a maioria mal preparados mas o resultado foi bom e notou-se que foi exigido um grande trabalho e esforço por parte dos grupos. A televisão apareceu e fez uma boa reportagem ao concurso (eu não vi, mas o que me chegou aos ouvidos foi que a entrevist à Marta correu muito bem). Os grupos seguiam temas diversificados, como frutarias, um restaurante, um negócio de saneamento para S. Tomé, um complexo desportivo, etc.. Bom, voltando à cooperação, foi depois desta apresentação na casa da cultura que fomos até ao BCP à procura de um bitoque. Ficamos até mais tarde, porque o João Neto (voluntário na primeira edição) fazia anos. Tivemos cervejas, snooker e música. Um bar aberto só para nós. Muita animação e uma noite muito bem passada. Obrigado ao bar da cooperação. Obrigado António da cooperação e já agora, parabéns Neto.


20 de Julho de 2011

Lagoa Azul

Lagoa Azul. Em qualquer serviço ou produto em S. Tomé, os “brancos” têm sempre um valor acrescido ao regular, contando com uma inflação extraordinária. É preciso negociar, informarmo-nos antecipadamente dos preços para não sermos enganados, mostrar que não somos ingénuos e que conhecemos o mercado. Os transportes não são excepção e hoje o parque dos motoqueiros estava atribulado. Queríamos ir para Norte e estávamos à procura da forma mais barata de lá chegar. Uma Hyace era alugada por 1000000 STD (40€) e cada mota era alugada a 350000 STD (cerca de 15€), quando o valor depois de regateado ficou em 200000 STD, ou seja, 8€. Após um pequeno “estudo de mercado” encontrámos a melhor solução. Um táxi de ida-e-volta onde ia o condutor e mais 6 por 400000 STD (cerca de 16€). O senhor Adilson, condutor do táxi, era muito simpático e lá fomos a ouvir as músicas santomenses e angolanas o caminho todo. A lagoa está um bocado escondida e para a encontrar tem que se ir com alguém que a conheça. A água é transparente e a temperatura bastante aceitável, mesmo sendo considerado Inverno de S. Tomé. Ao pé da pouca areia existente está um embondeiro, "a árvore do principezinho", com um tronco grosso e austero. Uma árvore que não é comum de encontrar e como no livro de Saint Exúpery dizia "Se o planeta for muito pequeno e os embondeiros muito numerosos rebentem com ele". Mais particularidades da lagoa, existem tubarões para lá da baía, pelo que não é aconselhável ir demasiado longe se não queremos ser o jantar de ninguém. De realçar que descobri que não sou nenhum artista na arte de snorkeling, vou ver se treino para melhorar. Algum conselho para melhorar a minha performance? Este foi um dia descansado e bem passado neste pedaço de São Tomé.

16 de Julho de 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cáritas

Cáritas. A Cáritas é uma ONG que está presente em S. Tomé e lida com crianças órfãs. A instituição conta com dois edifícios, um com os mais velhos, outro com os bebés. Os mais pequenos estavam fechados numa sala a brincar e a espreitar pela janela. Um já tinha feito xixi no chão, outro andava nu. As crianças eram adoráveis. Estávamos lá uns 8, metade MOVE, metade WACT. Eles eram uns 20 miúdos. Desde o Gordão ao Mantorras, passando pelo Pica-Pau, a Princesa e a Baby. Eles ficaram excitados com tanta gente para brincar e dar-lhes atenção, nós também estávamos a aproveitar cada minuto passado com os miúdos. Há crianças subdesenvolvidas, existem outras apenas carentes. São estes pequenos momentos que nos lhes demos a eles e eles a nós que nos fazem querer estar cá e conseguir ajudar mais gente, para que crianças na mesma situação tenham mais oportunidades e para que eles quando cresçam consigam ter mais ferramentas para a vida. Hoje foi o primeiro dia de Cáritas, muitos hão-de se seguir. 

12 de Julho de 2011

"Banhos"

“Banhos”. Há uma prática comum entre países subdesenvolvidos, com uma democracia jovem e instável, são os chamados subornos para comprar votos. Até nos países mais ricos e estáveis ouvimos histórias de pagamentos por votos, mas em países Africanos este conceito é comum. Os meios de comunicação costumam publicar este fenómeno mas só aqui apercebi-me a naturalidade com que acontece. O actual presidente da república, Fradique, foi eleito em 2001 e cumpre agora o segundo mandato. Com as eleições marcadas para o dia 17 deste mês, existem 9 ou 10 candidatos à presidência. Com tanta variedade podemos pôr uma pergunta óbvia, o que os distingue? As campanhas são iguais, pautadas por uma enorme falta de escrúpulos e de uma noção errada de democracia e verdade. Os cartazes dizem “Estabilidade”, “S. Tomé melhor”, “S. Tomé mais forte”. Ganha quem grita mais, quem faz mais festa, quem dá mais t-shirts, porta-chaves, bonés. Ganha quem dá mais dinheiro. Angola está por trás de muitos dos candidatos, com dinheiro e muita influência. Todos querem ser os novos “donos” de S. Tomé, ter o controlo da ilha, transformar o paraíso numa máquina de fazer dinheiro.
Num concerto de campanha para um dos candidatos, enquanto o animador da campanha faz propaganda para o candidato em questão, grita um espectador: “Dá-me 50 conto”. Ouvindo, o animador pergunta “Qual é a moeda de S. Tomé?”, ao que todos dizem “Dobra”, o animador responde “Quanto são 50.000 Dobras em Dólar?”, “3” gritam todos pondo 3 dedos no ar. O animador diz que não tem 3 dólares com ele, só tem uma nota de 100 e oferece ao espectador. Este espectador se, com sorte, ganhar o ordenado mínimo, acabou de receber num minuto mais do que em 2 meses de trabalho árduo.
Dia seguinte, um comício decorre com centenas de santomenses na rua, é oferecido dinheiro sem critério de escolha. Quem agarrar primeiro fica com ele. Há alguém que tira mais do que devia, há confusão, há pedras e troncos na mão. Estão prontos a fazer “justiça social”.
Nessa mesma noite, depois de um jogo de futebol com pessoal “tuga” e um santomense, surge a inevitável pergunta ao local “em quem é que vais votar?” a resposta é um simples “não tenho escolha”, ao que um dos portugueses interroga se ele vai votar no que pagar mais. Um sim surge da boca dele. Não foi surpreendente, não foi estranho, foi simplesmente natural e evidente.
“Banho” é o nome dado a esta compra de votos, a este processo sem escrúpulos e rodeado de falsidade. É pena que o slogan é “tempo de mudança” não aconteça e a tendência seja para destruir e corromper ainda mais a sociedade e a ilha.

10 e 11 de Julho de 2011

Santana

Santana. Para os três novos elementos Move, a alvorada foi tardia. Fomos com o Manel e a Marta para o centro da cidade, onde íamos apanhar um hyace – uma carrinha táxi – para Santana. O centro não estava muito movimentado, pois é domingo, mas consegui ter um “cheirinho” do que vou encontrar nos próximos meses. Numa loja o troco é dado ou com um saco ou com uma pastilha gorila. O hyace é pago por cada lugar e não por serviço. O condutor fala ao telemóvel, não tem espelhos, não há cintos e entram pessoas até caberem. A viagem mostra um pouco da “verdadeira” ilha: as barracas, as crianças a brincarem pela rua, o pé descalço, o comércio em barracões, etc. A pobreza contrasta com o verde das palmeiras e dos campos. Santana tem uma praia muito bonita e arranjada e, para nossa surpresa, contava com uma enchente devido às festas de S. Pedro. Mais de 100 crianças brincavam connosco, falando sem medo mas com alguma vergonha inicial. Fizemos jogos, atirámo-nos para a água com eles e jogamos à apanhada. “Os Brancos ficam a apanhar” era a mensagem. Foram duas horas que nos aliciaram para o que podemos encontrar cá e nos mostraram que mesmo com tão poucas condições, a felicidade e alegria é uma constante por aqui.

10 de Julho de 2011

Aterragem

Aterragem. O avião entra em São Tomé por cima do mar, aterrando num aeroporto improvisado e apinhado de santomenses. O “Zé Manel” (nome dado para apelidar o Zé e o Manel) esperava-me à saída. Apanhámos boleia do bispo Manuel para casa. Seguimos pela avenida marginal que liga o aeroporto à casa MOVE e atravessa toda a cidade. A casa fica na parte rica da cidade, onde se vêm casas maiores e arranjadas. Temos um quintal, onde temos o tanque, uma cozinha, duas casas de banho, uma sala e três quartos. A primeira noite em São Tomé contou com o meu primeiro banho na ilha, com uma jantarada no M12 e uma saída para a discoteca Tropicana. Música Africana, house fora-de-moda, alguma tarrachinha entre os locais e uma “aula” de kizomba com o Egas, o Ali e o Cunha, três santomenses que dão aulas na CACAU. Foi esta a primeira de muitas noites na ilha.

9 de Julho de 2011

Partida

Partida. Foi numa confusão de malas e numa agitação de pessoas que me envolvi nas primeiras horas de aeroporto. A uma hora da partida, continuava uma imensa fila onde pairava uma despreocupação estranha, um à vontade e alegria que não permitia qualquer inquietação. Depois de conversas travadas e das malas despachadas, chegou a Hora do Adeus. Da Família. Da Namorada. Dos Amigos. Aquela hora, condenada à tristeza do “adeus”, foi, para mim, transformada num alegre “até já”. Obrigado a vocês. Realizei, por instantes, que vou estar ausente de tanta amizade e de tanto amor. Não sei o que me espera mas sei com o que posso contar de vocês. Os sentimentos continuarão presentes e fortalecidos. São eles que dão força. Eu sinto-me forte. Eu estou forte. Eu sou forte. O avião é a minha fronteira entre o conhecido e o desconhecido, em que o primeiro suportará o segundo e trará novos caminhos por descobrir. Que cheguem eles. Que venha a descoberta, os novos desafios. Que venha África. Que venha São Tomé e Príncipe.

9 de Julho de 2011